terça-feira, 10 de março de 2015

Duas ambientalistas engarrafadas. Ou: Meu preconceito, minha vida

Esta é uma reedição de um post do velho blog do Código Florestal publicado há quatro anos (Com quantas tapioquinhas se sedimenta um preconceito?). Desde de 2010, e aqueles que me acompanham sabem disso, costumo usar em meus carros um adesivo com a seguinte frase escrita em inglês: Save an amazonian, burn an enviromentalist. A frase é um provocação à indiferença dos ambientalistas em relação à dimensão social do conceito de desenvolvimento sustentável amplamente evidenciada neste blog e no velho www.codigoflorestal.com. Vez por outra pego um ambientalista revoltadinho tirando fotos do meu carro na rua. Hoje aconteceu novamente.

Duas mulheres pararam ao meu lado em um dos muitos engarrafamentos de Brasília e perguntaram o que significava a frase em inglês. Nem vou entrar no mérito do desvio de caráter que há em se perguntar a alguém algo cuja reposta já se conhece. Mas, decidi republicar, com algumas modificações, o velho post sobre as tapioquinhas e o preconceito. O post foi publicado originalmente quando um outro grupo de ambientalistas se deparou com o mesmo adesivo quatro anos atrás em Paragominas.

Com quantas tapioquinhas se sedimenta um preconceito?

Imagine que você é um brasileiro estudante de filosofia e está em Paris trabalhando numa tese sobre a forma peculiar da construção lógica de Ignancy Sachs. Você para em um café e pede um croissant. Daí você olha no guardanapo e está escrito em francês: Salve a Amazônia, queime um brasileiro.

Você pode fotografar o guardanapo, perguntar ironicamente ao garçom o que significa a frase e sair de lá escandalizado dizendo para todo mundo que foi ameaçado de morte por um francês fascista. Ou, com outra atitude, você pode pensar a respeito.

Os brasileiros estavam mesmo queimando a Amazônia, logo, seria natural que um francês imaginasse que queimar um brasileiro seria um bom atalho para salvar a Amazônia e o planeta. Para além de uma ameça velada, a frase do guardanapo resumiria muita coisa.

Agora, imagine que você é uma amazônida que veio para Altamira, no Pará, incentivado pelo governo brasileiro nos anos 70. O governo te pediu para vir, te deu terra, te mandou desmatar terra, te pagou para isso e de repente, não mais que de repente, chegam os ambientalistas te tratando como criminoso.

O ambientalismo desembarcou na Amazônia e tratou de asfixiar a economia predatória que achou aqui, o que não deixa de ser uma forma metafórica de se queimar alguém. Mas, por outro lado, o ambientalismo não se importou em construir a nova economia verde.

O resultado dessa inconsequência foi salvação da floresta tolhendo e oprimindo o povo. Ano passado uma dessas agremiações de ambientalistas divulgou um índice mostrando que a amazônia tem os piores indicadores sociais do Brasil, apenas pouco mais de 80% da floresta conservada.

O ambientalismo vem opriminndo e violentando o povo da Amazônia em nome da salvação da floresta. Isso, na minha leitura, é uma forma canalha de se fazer o bem. Todos os tiranos do planeta arranjaram uma forma de justificar, de tornar moral, a opressão que imprimiram. Uma frase de efeito é sempre uma frase de efeito.

Mas, ao encontrar em um engarrafamento de Brasília um carro com a frase: Salve um amazônida, queime um ambientalista, você pode tirar fotos, fazer perguntas irônicas ou sair por aí, desvairado, dizendo que te ameaçaram de morte em Paris, Brasília ou na Amazônia. É sempre mais divertido e mais simples.

Mas você pode ter outra atitude e pensar sobre isso. Pensar sobre a luta por desenvolvimento sustentável tendo como meta a dimensão ambiental sem o devido cuidado com as faces social e econômica da luta.

Em tempo, este foi um post direcionado. Se você não entendeu nada, não se apoquente.

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